Capítulo 10.1 Ideologia

 Vamos definir aqui, apenas para efeito de entendimento, que ideologia seja um dos conjuntos de idéias que,  embora tenham aparência de verdade,  não atendem ao quesito de serem evidentes por si mesmas, sendo portanto em grande parte ilusórias, mas que seguem orientando os modos de ser e fazer das pessoas. 

A mim me parece que nosso sistema alimentar se encontra grandemente impregnado da idéia de obter lucro a qualquer custo o mais rápido possível.


É óbvio que grandes corporações forçam o consumo e impõem preços, produtos e serviços, inclusive relacionados a saúde e alimentação, sob a capa da justiça e do costume,  ainda que, muitas vezes,  esses produtos, bens e serviços não sejam os mais adequados à saúde das pessoas.

Vá a uma farmácia ou supermercado. Você verá,  tanto na parte de suplementação alimentar, quanto na de alimentos empacotados, que os produtos possuem, via de regra, maior quantidade de carbohidratos em relação aos demais conteúdos, proteínas, por exemplo.  

Alimentos de supermercado e suplementos alimentares vendidos também em farmácias ou lojas especializadas, são cultivados, industrializados,  embalados e distribuídos por grandes corporações. Tais  corporações estão entre as que tem o verdadeiro poder de uma nação, que é o poder econômico.

Então, sabemos que esse poder econômico pertence, também, a poderosas organizações  envolvendo prestação de serviços de saúde, agronegócio, hospitais, farmácias, postos de saúde, governantes, fabricantes de remédios e equipamentos.

Tais organizações, com fins lucrativos - exceto governo, naturalmente -, patrocinam eventos, pesquisas, programas de TV, revistas, congressos, eventos esportivos gigantescos, fornecem amostras grátis para médicos, enfim, há enorme gama de pessoas profundamente envolvidas com a ideologia do lucro quando deveriam cuidar mais da nossa nutrição e saúde do que de encher os próprios bolsos de dinheiro. 

É nesse sentido,  então, que nós temos algo da ideologia para comentar numa história de diabetes.  Como se deu isso comigo  no varejo, em termos práticos?

Na minha segunda consulta médica, para me orientar sobre cirurgia de hérnia inguinal, levei os resultados do exame de sangue ao geriatra. Ele leu atentamente e cantarolou baixinho, mas audível:

"-- vai ter que tomar remédio, vai ter que
tomar remédio." Ainda tenho a melodia na minha cabeça: lá dó dó dó dó ré dóóó lá, lá dó dó dó dó ré dóóó lá.

Nesse dia a glicemia de jejum, aquela que se mede pela manhã, após a pessoa se levantar, tinha caído para 145 ou seja, cerca de 50% da glicemia média dos três meses anteriores. Ele falou que a diminuição era devida a eu ter retirado da minha alimentação alimentos com carbohidratos.

Receitou suplemento alimentar que, só percebi depois, tinha 50% de carboidrato. Então, todo dia de manhã eu tomava três colheres medidas daquele suplemento e de tarde tomava outras três. O médico receitou aquilo porque eu estava com acentuada perda de peso, sarcopenia, e precisava de reforço proteico.

Acontece que  o suplemento, como eu disse, tinha 50% de carboidrato, o que quer dizer que das seis colheres medidas que eu tomava, três colheres medidas eram açúcar. Ora como uma pessoa que tem diabetes pode tomar três colheres medidas de açúcar sem exacerbar ainda mais sua doença?

Pensei que o médico era burro. Mas não era. Acontece que está nas diretrizes alimentares brasileiras a indicação de ingerir cerca de 50% de carbohidratos na nossa alimentação. 

O médico nem teve o trabalho de procurar adequação da carga glicêmica do suplemento à minha condição de intolerância à ingestão de carbohidratos. Em farmácias e supermercados,  naqueles dias, na minha cidade, só se encontravam suplementos com cerca de 50% de carbohidratos.

Há excessões, aprendi depois, mas a maioria dos suplementos populares disponíveis tem cerca de 50% de carbohidratos, estando dentro dos limites legalmente permitidos.

Aliás, é preciso dizer, que na primeira consulta, quando ainda não tínhamos os exames de sangue, o doutor me receitou suplemento alimentar com 24% de carboidrato. Na segunda consulta, quando do diagnóstico de diabetes, ele receitou outro produto, em substituição ao primeiro, da mesma empresa, mas com 50% de carboidratos.

Quer dizer, ao elaborar o diagnóstico da doença, ele receitou ingestão de alimento que iria agravar drasticamente a doença. Gente, esse médico era um geriatra experiente que, segundo me disse, cuidava de várias pessoas velhas, uma com 100 anos!

Outro exemplo significativo é o de um suplemento que ostenta em sua embalagem desenho simulando carimbo dizendo que o produto é específico para pessoas com i tolerância anormal à glicose.  Ora, no rótulo do produto constam os carbohidratos, quase 50 %.  Se metade daquilo é açúcar, como pode ser bom para pessoas com DB2?

Isso, minha gente, sem falar no fato de que você paga caríssimo por um suplemento alimentar,  mas leva metade em açúcar que tem valor bem menor.  Quer dizer aplica-se a 50 % de açúcar o mesmo preço cobrado pelos 50% do  suplemento propriamente dito.  Aliás, estamos falando em ideologia, certo?  Pois bem, quando eu concluía escrita deste trecho, comentei o conteúdo com uma pessoa. Ela disse que não concordava comigo, pois achava que o açúcar era colocado apenas para o suplemento ficar gostosinho.

Pior é que ela tem razão, parcialmente, porque açúcar vicia. Este fato é importante, anotem aí: carboidrato vicia, por isso é difícil evitá-lo.

Voltando ao meu exemplo falei via telefone com uma nutricionista de plantão na empresa que vende o tal suplemento para pessoas diabéticas. Ela respondeu que o produto era testado e tinha as características exigidas pela legislação brasileira e pela Associação Americana de Diabetes (ADA). 

Pedi a ela para registrar e encaminhar aos escalões da empresa minha observação, via e-mail, de que tal produto era deletério para pessoas diabéticas, por conter quase metade de puro açúcar. Ela disse que faria o encaminhamento e que eu receberia resposta.

Nunca recebi resposta, nem era necessário, pois qual seria  a resposta previsível de um criminoso, que não fosse negar a autoria e até o crime? 

Esses exemplos mostram alguns dos múltiplos aspectos da sobreposição do interesse das classes mais poderosas em detrimento do comum das pessoas.

Isto não quer dizer que os profissionais envolvidos são pessoas burras ou más.  O fenômeno se dá por via ideológica, pela qual todas as pessoas acreditam em algo que, imperceptivelmente, causa prejuízo ao comum das pessoas enquanto beneficia apenas detentores de poder.

Muitas destas pessoas, mesmo as menos aquinhoadas materialmente, até desconfiam de que "tudo é interesse" mas passam ao largo do entendimento de que a ideologia vigente, oriunda das classes dominantes, fornece o enquadramento geral dos processos, inclusive do ponto de vista da legalidade. 

Nem mesmo de um médico,  por mais bem preparado que seja, podemos esperar que compreenda que as diretrizes que segue sejam impregnadas de interesses das classes dominantes. Até porque, via de regra, esses profissionais são recrutados entre membros dessas classes ou são apenas cooptados pela ldeologia delas, incapazes, portanto, de enxergar algo fora de seu horizonte formativo.

Há,  portanto, um viés ideológico de difícil superação que impregna nosso dia-a-dia, inclusos profissionais da saúde. Exemplo prático, as diretrizes da ADA - Associação Americana de Diabetes, que só veio a reconhecer em 2019 que estratégias alimentares de redução de carbohidratos são as mais adequadas para tratamento da diabetes. Outras entidades seguirão a ADA, mas demorará um pouco para tal reconhecimento entre nos currículos das escolas de nutrição e nutrologia. Aqui cabe a observação de que profissionais que ministraram cursos e orientaram trabalhos acadêmicos de todos os níveis, e que até o momento acreditavam no dogma da pirâmide imentar, precisarão de incomensurável galhardia para o improvável reconhecimento de que estavam "errados".

Ocorre, também, que reduzir carboidratos da nossa alimentação, açúcar, arroz, farinha de trigo, por exemplo, implicaria numa revolucão em nossa máquina produtiva. Os senhores dessa máquina, ao que parece,  se importam  muito pouco com a vida das pessoas, reduzida ou prejudicada pelo inexorável escalavrar da saúde, ainda que lento. É como se não percebessem que o valor de uso das mercadorias que produzem está subvertido.

Com a adesão de mais países às diretrizes americanas sobre ser a alimentação de baixo carboidrato a mais adequada ao tratamento da DB2,  é de se esperar melhor equilíbrio entre o necessário lucro das empresas e a manutenção da saúde das pessoas.

Extraido de uma propagandadosrtanquinho"

Mito #1 — Mito da mesmice

Mito: “Todos os produtos são ruins da mesma forma. Não importa o que eu escolher, tudo vai fazer mal mesmo.”

Verdade: Os produtos que estão "dentro de embalagens" não são todos iguais. Entre o iogurte de 2 ingredientes e a salsicha mais “sujeira” do mercado, existe um longo caminho. Você pr

Mito #2 — Mito da ignorância

Mito: “Não dá para a gente aprender tudo. Conservantes, corantes, carboidratos líquidos, adoçantes, fibras, polióis, aditivos… preciso de uma vida inteira para aprender isso.”

Verdade: As coisas parecem mais complicadas antes de entendermos os conceitos certos. 

Você provavelmente achou, lá atrás, que fazer receitas low-carb gostosas e fáceis seria impossível, não é mesmo?

Sim, existem conservantes, corantes, adoçantes, carboidratos e mais detalhes atrás de um rótulo. No entanto, com o conhecimento correto, é possível compreendê-lo sem dificuldades.

Mito #3 — Mito da utopia 

Mito: “É só eu nunca mais comer absolutamente nada que venha numa embalagem, que não preciso saber disso. É fácil.”

Verdade: Será mesmo que você nunca mais vai comer nada que não tenha saído da feira ou do açougue? 

Iogurte, queijo, bacon, creme de leite, azeite, manteiga (só para dar alguns exemplos) tudo isso tem rótulos. 

Não acha que vale a pena aprender a escolher os melhores produtos?


Uma coisa que precisamos aprender, minha gente, é como nós temos nossas mentes infiltradas por idéias que nos são prejudiciais, mas que nos fazem pensar que são boas para nós. O mito do pai da Conceição: ele fumou até os 99 anos e nunca teve problemas.

Então, trocar o particular pelo geral é um dos truques do sistema.

Definir exatamente o que é ideologia é tarefa difícil mesmo para pessoas experimentadas no trato com idéias. Isto, porém, não me impede de intuir algo sobre o funcionamento da ideologia.

Nós sabemos que ela é hora uma disciplina, a do  estudo das idéias, hora a própria idéia.

A proposta aqui é de tratá-la como um feixe de idéias oriundo dos extratos mais abastados da sociedade com o objetivo de fazer as pessoas se comportarem de tal ou qual maneira. Naturalmente, no sentido de perpetuar as vantagens e diminuir as desvantagens daquele extrato social.

Pois bem, um exemplo disso é  modo como a economia foi ensinada em apostila de curso preparatório para concurso ao acesso de emprego no Banco central, no que tange ao valor das mercadorias. Num primeiro momento se faz confundir valor com preço. Noutro, que esse dado, valor=preço das mercadorias, varia conforme a lei da oferta e da procura.

Ocorre que, de fato o valor é dado antes da mercadoria chegar ao mercado para se submeter àquela lei. Ao chegar ao mercado a mercadoria já recebeu em si o valor do mais valor e o valor dos outros meios de produção. Estabelecido esse valor a mercadoria passa, então a ser tratada de acordo com as leis de mercado. Que antes outras mercadorias iguais já foram submetidas à oferta e demanda, por isso já tem seus valores definidos no e pelo mercado é questão irrelevante. O que importa é a gênese do valor, que só podemos inferir quando consideramos o equilíbrio da oferta e da procura.

Perguntar a Marlena

Nossa alimentação e composta de três grandes grupos chamados de macronutrientes

Carboidratos: arroz, batatinhafarinha de trgo (pães, macarrão), etc.

Proteínas: ovos e carnes, etc.

Gorduras: manteiga, torresmo, etc.

Ocorre que já está bem estabelecido o fato de que o consumo de carboidratos e produtos altamente industrializados é, via de regra, prejudicial à saúde, mormente de pessoas obesas ou diabéticas, cujo número é crescente e assustador.

Todavia,  as diretrizes alimentares para o povo brasileiro, embora recomendem consumo de produtos in natura mais do que industrializados, elas ainda mantém a recomendação de 50 % de carboidratos como padrão alimentar recomensado ao povo brasileiro 

As pessoas nem sabem que essas diretrizes existem, mas sofrem seus efeitos no corpo e no bolso, pois carboidrato não mata a fome senão por umas três horas e provoca acirramento dos males da diabetes e obesidade.

Mas diga a uma pessoa que ela deve substituir de sua alimentação o arroz, a batatinha, o macarrão e o pão por alimentos mais nutritivos e saciantes. A pessoa quase se ofende, porque acredita piamente que seus alimentos de décadas não podem lhes não serem bons para saúde.

Haveria possibilidade de se valer da idéia de ideologia para explicar, então, como  as pessoas creem que estão se alimentando bem quando na verdade estão sendo enganadas?

09.08.22

 Podemos generalizar para diabetes, pressão alta e outras mazelas, veja:

EDITORIAL | VOLUME 10, EDIÇÃO 8, P549,01 DE AGOSTO DE 2022

O que está nos impedindo de conter a crise da obesidade?

The Lancet Diabetes e Endocrinologia 

"...A obesidade é uma condição multifatorial, decorrente de uma combinação de fatores biológicos, de estilo de vida, socioeconômicos e ambientais, e é exacerbada por determinantes comerciais e políticos..."

E  continua "....Longe vai a noção de que a obesidade é um problema exclusivo de países de alta renda. Mais de um terço dos países de baixa e média renda (PBMRs) documentaram taxas crescentes de obesidade ao lado de desnutrição,,,"

E conclui "...é fundamental para neutralizar o aumento da obesidade e comorbidades associadas – o que precisamos é de uma mudança de mentalidade, o que requer uma boa dose de bom senso, engajamento público e vontade política.



Relativo a soja. Observe as ligações entre poder econômico e ciência.


https://www.westonaprice.org/health-topics/soy-alert/tragedy-and-hype-third-international-soy-symposium/?qh=YToyOntpOjA7czozOiJzb3kiO2k6MTtzOjU6InNveSdzIjt9#gsc.tab=0


http://luizmeira.com/soja2.htm


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